Profiteroles

Tem isso na tua cidade? Em 1998, profiteroles era o pão artesanal do momento.

Tu ia nesses restaurante metido a besta, eles serviam de sobremesa. Aí a classe média que já tinha conquistado um plano de saúde da Amil, o básico, sem direito a helicóptero, mas com direito a band-aid gourmet, essa turma comia medalhão de frango com bacon, arroz à piamontese e fechava com profiteroles.

Nossa, mano. Se tivesse internet ali, ia ser uma enxurrada de selfie de assistente administrativo e gerente de setor confraternizando o 13o juntos.

Os filhos da classe média tá do jeito que tá, porque foi alimentada com arroz à piamontese e profiteroles. E mistura disso na barriga gera um ácido graxo que altera a estrutura biomolecular da vergonha no meio da cara.

Na época, Rivotril era MESMO remédio controlado. Hoje, tu compra Rivotril na mesma estante do Mentos. Sipá, Mentos tem sabor Rivotril.

Quem comia profiteroles eram os entusiastas do Kiwi, que chegara ao Brasil alguns anos antes. E não ouviam Benito di Paula. Ouviam Jorge Vercillo. Eles só não sabiam que Jorge Vercillo era o novo Benito di Paula.

Eu gosto dos dois, frise-se.

Ouço Benito, fico grande, quero beber, começo a falar igual Jurandir, boto uma pulseira grossa de prata no braço, uma camisa de viscose, calça branca. Fico na janela olhando pros vizinhos, pra ver se eles tão me olhando. E bebo. Ahhhh, como eu amei. Se ouço Vercillo, fico tímido-choroso. Boto pijaminha, sento no cantinho do sofá e como um potinho de profiteroles.

Ocorre que essa classe média é a gênese da família brasileira de Curitiba. Tudo começou com o profiteroles. Não foi o Departamento de Estado Americano, foi o profiteroles, que é a fonte da discórdia. Antes, tinha o Pirarucu da Discórdia. Quem comia pirarucu era brasileiro pra caralho, agora é o inverso: é pra comer um troço menos brasileiro possível.

Pense, Sonia. Antigamente era José Wilker no set de gravação de Bye, Bye, Brasil, cheio de farinha nos lábios e pirarucu. Soca pirarucu. Cinema brasileiro. Cabelo pubiano alto. Muito palavrão. Áudio mal feito. Era o que dava, porra.

Depois, o profiteroles foi perdendo espaço para outros encostos. Veio o iogurte com topping. Bagulho era comer iogurte, tinha topping de cereja, de limão, de morango, topping de merda, topping de profiteroles, uma versão vintage.

E ladeira abaixo. Brizola tinha razão.

Profiteroles era coisa de Fernando Henrique.

Iogurte com vários toppings era Classe CDE. Brasil povo, Brasil Garanhuns, nunca antes. Aí veio o naked cake, e a putaria dava sinais que ia dar merda. E depois o Food Truck, o Barber Shop, e a reação da classe média foi definitiva com a dança contra a corrupção.

Seja patriota, vem lutar por tua nação.
Lembra?

Todo mundo ali come profiteroles. Os pais comiam. Tem fotos de família com profiteroles.

Cabou Benito, cabou Vercillo. Hoje é sertanejo. Um negócio meio iludido com casamento e amante. Meio rock, meio gospel, ruim por inteiro. Só tem branco comedor de profiteroles. Me processem.

Eu que achava Tião Carreiro raiz, hoje quem é raiz é Michel Teló. Tião Carreiro cê dava bom dia, ele largava um acorde de modão e cuspia na tua cara, e vinha o Rolando Boldrin mandando você comprar tijolo e cimento na Casa de Construção Nossa Senhora de Goiás. Hoje, sertanejo fica fazendo batida de funk no IPad, querendo ter experiências artísticas disruptivas, com uns corte de cabelo muito loko.

O Brasil tinha que ser que nem boate, tinha que ter vários ambientes. Eu ia pro Brasil vintage. Não tô dando conta desse aqui não. Essa galera que diz que encontrou as respostas, olha, eu preferia quando a gente só tinha perguntas, angústias e a Angela Rô Rô com cigarro na mão cantando Amor Meu Grande Amor, e a gente chorando no chão da cozinha bebendo Pitú.

– Anderson França (https://www.facebook.com/DinhoEscritor/posts/712227922321340?__tn__=H-R)

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Sobre carnaval

Às vezes eu sinto que o Carnaval é o mamilos polêmicos da nossa cultura. É uma tradição polarizada: ou você ama, ou você odeia. E por muito tempo eu odiei. Mas muito.

Como eu já contei em outra postagem, eu era bem babaquinha quando era mais nova. Eu era preconceituosa pra caramba, não sabia do que o carnaval realmente se tratava. Lembro de ter curiosidade sobre de onde veio o carnaval já velha, quando descobri que os EUA e a Europa também tinham carnavais, mas não busquei a origem de nada. Só li como eram os carnavais nesses lugares atualmente.

Há poucos anos que vi que a coisa é bem mais velha e complexa do que eu imaginava.

Na verdade, o carnaval tem várias origens. Havia comemorações similares em alguns lugares na Antiguidade, como Roma, Grécia, Mesopotâmia e Babilônia.

“A palavra carnaval é originária do latim, carnis levale, cujo significado é retirar a carne. O significado está relacionado com o jejum que deveria ser realizado durante a quaresma e também com o controle dos prazeres mundanos. Isso demonstra uma tentativa da Igreja Católica de enquadrar uma festa pagã.

“Na antiga Babilônia, duas festas possivelmente originaram o que conhecemos como carnaval. As Saceias eram uma festa em que um prisioneiro assumia durante alguns dias a figura do rei, vestindo-se como ele, alimentando-se da mesma forma e dormindo com suas esposas. Ao final, o prisioneiro era chicoteado e depois enforcado ou empalado.

“O outro rito era realizado pelo rei nos dias que antecediam o equinócio da primavera, período de comemoração do ano novo na região. O ritual ocorria no templo de Marduk, um dos primeiros deuses mesopotâmicos, onde o rei perdia seus emblemas de poder e era surrado na frente da estátua de Marduk. Essa humilhação servia para demonstrar a submissão do rei à divindade. Em seguida, ele novamente assumia o trono.

“O que havia de comum nas duas festas e que está ligado ao carnaval era o caráter de subversão de papéis sociais: a transformação temporária do prisioneiro em rei e a humilhação do rei frente ao deus. Possivelmente a subversão de papeis sociais no carnaval, como os homens vestirem-se de mulheres e vice-versa, pode encontrar suas origens nessa tradição mesopotâmica.

“As associações entre o carnaval e as orgias podem ainda se relacionar às festas de origem greco-romana, como os bacanais (festas dionisíacas, para os gregos). Seriam festas dedicadas ao deus do vinho, Baco (ou Dionísio, para os gregos), marcadas pela embriaguez e pela entrega aos prazeres da carne.

“Havia ainda em Roma as Saturnálias e as Lupercálias. As primeiras ocorriam no solstício de inverno, em dezembro, e as segundas, em fevereiro, que seria o mês das divindades infernais, mas também das purificações. Tais festas duravam dias com comidas, bebidas e danças. Os papeis sociais também eram invertidos temporariamente, com os escravos colocando-se nos locais de seus senhores, e estes colocando-se no papel de escravos.

“Mas tais festas eram pagãs. Com o fortalecimento de seu poder, a Igreja não via com bons olhos as festas. Nessa concepção do cristianismo, havia a crítica da inversão das posições sociais, pois, para a Igreja, ao inverter os papéis de cada um na sociedade, invertia-se também a relação entre Deus e o demônio.

carnaval-medieval
Ilustração medieval simbolizando um carnaval do período

“A Igreja Católica buscou então enquadrar tais comemorações. A partir do século VIII, com a criação da quaresma, tais festas passaram a ser realizadas nos dias anteriores ao período religioso. A Igreja pretendia, dessa forma, manter uma data para as pessoas cometerem seus excessos, antes do período da severidade religiosa.

“Durante os carnavais medievais por volta do século XI, no período fértil para a agricultura, homens jovens que se fantasiavam de mulheres saíam nas ruas e campos durante algumas noites. Diziam-se habitantes da fronteira do mundo dos vivos e dos mortos e invadiam os domicílios, com a aceitação dos que lá habitavam, fartando-se com comidas e bebidas, e também com os beijos das jovens das casas.

“Durante o Renascimento, nas cidades italianas, surgia a commedia dell’arte, teatros improvisados cuja popularidade ocorreu até o século XVIII. Em Florença, canções foram criadas para acompanhar os desfiles, que contavam ainda com carros decorados, os trionfi. Em Roma e Veneza, os participantes usavam a bauta, uma capa com capuz negro que encobria ombros e cabeça, além de chapéus de três pontas e uma máscara branca.

 

“A história do carnaval no Brasil iniciou-se no período colonial. Uma das primeiras manifestações carnavalescas foi o entrudo, uma festa de origem portuguesa que na colônia era praticada pelos escravos. Depois surgiram os cordões e ranchos, as festas de salão, os corsos e as escolas de samba. Afoxés, frevos e maracatus também passaram a fazer parte da tradição cultural carnavalesca brasileira. Marchinhas, sambas e outros gêneros musicais também foram incorporados à maior manifestação cultural do Brasil.”

Referência: PINTO, Tales dos Santos. “História do carnaval e suas origens”; Brasil Escola. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/carnaval/historia-do-carnaval.htm&gt;. Acesso em 05 de fevereiro de 2019.

Então, para quem diz que o carnaval não serve pra nada e que é só baixaria: o carnaval não apenas é espaço para entreter, expressar opiniões políticas e contar histórias verdadeiras, mas também é espaço para manter os aspectos remanescentes da cultura negra.  E o que incomoda as pessoas no Carnaval é o fato de ser uma mistura de culturas e de haver cultura negra incluída.

Muitas das opiniões sobre carnaval desdenha do carnaval brasileiro, mas fala maravilhas do europeu. Adoram ver um pierrot ou um pedrolino, gostam dos confetes, das serpentinas e de ver o povo se divertindo na rua. Porém ignoram que lá também rola pegação dos jovens, também tem bastante bebida, também tem calor e também tem mistura de culturas. Mas como tudo está por trás de uma máscara branca, tudo bem. Já aqui o negro não está escondido e isso incomoda. No carnaval brasileiro, o negro fala e o mundo ouve.

E como lidar com a vergonha de saber que somos todos parte desse esquema de preconceito? Ignorando-a, se sentindo atacado e tendo uma verborragia preconceituosa de que o carnaval só tem coisas ruins e promíscuas. Aham. Senta lá, Cláudia.

O Brasil não é um país de uma cultura branca. Brancos foram invasores e imigrantes. A cultura mais próxima de chamarmos de original é a indígena, que também é múltipla e que poucos se importam em conhecer.

É difícil admitir, mas a probabilidade é que você não seja branco. E mesmo se for, não tem uma cultura branca pura para a qual se voltar. Sinto em te informar, mas não existe cultura pura. Como você pode ver, tudo o que existe no mundo é mistura de vários países, seja por influência de religião, seja por invasões e dominações políticas. E as poucas coisas que não se misturam acabam mudando com o tempo. As gerações abandonam ideias antigas e aparecem ideias novas. É assim no mundo todo porque essa é a natureza do ser humano. Somos todos mutáveis e múltiplos.

Quem defende barrar imigrantes para proteção da cultura e critica países que apresentam muita mistura, olha, essa pessoa não sabe o que é cultura e nem como ela funciona. Precisamos estudar e compreender que todas as culturas são dignas de respeito. Elas precisam ter espaço e liberdade para serem expressadas e seguirem seu curso natural.

Portanto, não tenha preconceito com o que corre nas suas veias nem com o que está ao seu redor. Ame-se, ame o coleguinha e se torne uma pessoa mais rica em todos os sentidos.

De repente mãe: fodeu

Engravidar de repente é complicado. Se você não tem pessoas à sua volta que possam te guiar sobre como se preparar para o nascimento dessa criança e você não sabe bulhufas também, seus problemas acabaram! Fiz um pequeno guia quando minha filha nasceu e quebrei a cara de todas as formas possíveis e imagináveis. Tem o que comprar de roupas, de produtos de higiene, o que fazer na gravidez, no pós-parto e até carrinho, cadeirinha e essas coisas. Tudo bem explicadinho.

Então, para vocês, futuras mamães dessas interwebs, aqui estão algumas dicas não solicitadas e inconvenientes para quem tiver interesse! Haha!

LISTA DE COISAS BÁSICAS PARA BEBÊ

Calcule em qual estação do ano o/a bebê nascerá para saber se precisará mais de roupas de calor ou de frio. Faça as contas e o que for precisar mais tarde, compre maior e fora de época, que é mais barato. E foque em roupas básicas e baratas. Bebês vomitam e fraldas vazam, então não vale a pena gastar milhões em uma camisetinha decorada que vai ser vomitada/cagada e não vai servir dali um mês.

→ Mínimo de 10 unidades de:
– Babinhas/Pano de boca;
– Fraldas de pano grandes;
– Camisetinhas manga comprida;
– Camisetinhas manga curta;
– Blusas de frio (moletom ou tecido tipo pelúcia);
– Body manga comprida;
– Body manga curta;
– Calças com pé;
– Calças sem pé;
– Macacões de frio;
– Calcinhas/Cuecas;
– Regatinhas;
– Shorts;
– Pares de meia;
– Toucas.

Obs.: Atente se algum tecido coça, espeta ou se um elástico/botão incomoda. Bebês são sensíveis e o detalhe mais insignificante na roupa pode incomodar ou causar hematoma. Sugiro roupas sem elástico na cintura e calças/shorts largos.

→ Mínimo de 5 unidades:
– Lençol branco com elástico;
– Lençol branco sem elástico;
– Cobertores leves e pesados;
– Xales.

Obs.: Branco, cores claras e coisas sem estampa são mais fáceis de lavar porque é cloro e pronto. E travesseiros não são bons para a coluna do/a bebê. No começo, por conta de refluxo, x bebê precisa ficar reclinado/a, então, pode ser útil o uso de um travesseiro anti-refluxo (caaaaaro) ou cobertores dobrados e colocados embaixo de um lençol grande para que ele/a fique reclinado/a sem embolar os cobertores. Aliás, isso só fica firme no berço por causa das grades. Em cama ou sofá eles desmontam. Carrinho que reclina também é mara.

→ De 1 a 2 unidades:
– Jogo de protetores de berço;
– Travesseiro/Travesseiro anti-refluxo (caso precise, se não, não gaste com isso);
– Aqueles rolinhos presos um ao outro com tecido (esqueci o nome) para evitar do/a bebê rolar no travesseiro anti-refluxo.

Obs.: É bom ter extra para casos de vômito, diarreia, etc. Mas o travesseiro (normal) pode comprar anos mais tarde. Eu não comprei os rolinhos e suei enrolando cobertor e fralda e prendendo embaixo de lençol. Fica péssimo, solta por tudo e por nada.

→ Medicações:
– Tylenol bebê gotas;
– Dipirona sabor framboesa
– Luftal Pediátrico.

Obs.: Dar a medicação ao menos 15 minutos antes ou depois de mamar. Se o intervalo for menor, pode provocar vômito por serem doces demais (dica da enfermeira do postinho no dia da vacina).

→ Produtos de higiene de quantidade variada por mês:
– Fraldas recém-nascido (Pampers, Huggies e Mammy Poko);
– Pomada para assaduras (Hipoglós ou Baby D);
– Álcool 70 – 1 frasco pequeno para limpar o umbigo;
– Cotonetes – 1 pacote grande para umbigo, orelhas e nariz;
– Rinosoro gotas;
– Xampu chega de lágrimas (Huggies, Turma da Mônica, extra suave);
– Lenços umedecidos – 3 pacotes grandes (Feel Clean, Pampers, Johnson’s);
– Algodão – 1 pacote grande;
– Gaze – 1 pacote grande (para higienização na boca, com água);
– Supositório de glicerina de 0 a 2 anos (Granado, sim, igual ao talco, sabonete, etc. Faça estoque porque é difícil de achar, mas tem o melhor tamanho);
– Óleo Johnson’s (para quando a cabeça descascar a pele do útero, limpar com o óleo e uma escova macia de cabelo para bebê).
– Água oxigenada 10 volumes líquida (para limpar o berço, a mamadeira, chupeta, brinquedos, etc.).

Obs.: Tudo isso varia com as necessidades fisiológicas do/a bebê, então, pode ser que use bem mais ou bem menos. As marcas citadas são as que considero serem as melhores. Fique atenta a possíveis alergias na pele, principalmente com os lencinhos. Sabonete e condicionador são só depois de um ano. Antes disso, pode dar banho só com o xampu. Filtro solar só depois de 6 meses. Hidratante só comecei depois de 1 ano.

→ Itens variados:
– Mamadeira Lillo com bico sem respirador (é bom ter extra em casa caso saia e esqueça nos lugares ou estrague por algum motivo);
– Chupetas (se quiser) e prendedor de chupeta;
– Escova macia de cabelo;
– Tesourinha sem ponta de unha (melhor que cortador porque você pode controlar mais e não cortar o dedo do/a bebê);
– Termômetro digital;
– Aspirador nasal.

Obs.: O respirador no bico da mamadeira prejudica o exercício de sugar e atrasa o desenvolvimento da musculatura da face para a mastigação e a fala, de acordo com todo pediatra. Milha filha usa a com respirador e engasga ainda com comida muito seca e pedaçuda, sendo que era pra já comer comida normal (ela tem 1 ano e 8 meses). E compre uma mamadeira só, da grande. Comprar a pequena pra água ou pra início de amamentação, que é de poucos ml, é desperdício de dinheiro. Essas coisas são caras. Chupeta… Cê que sabe, tem problema nenhum. Se não pegar ele/a pode usar pra morder e coçar a gengiva com os dentes nascendo. Escova e tesoura você acha em kit com necessaire e tudo. O aspirador, se você achar de mangueirinha que você chupa a meleca com a sua boca, pegue esse. Tenho o gordinho da Lillo (que parece uma mini-ducha vaginal) e acho um saco de encaixar, minha filha chora e é horrível.

Obs. 2: Pediatra adora falar que a criança tem alergia a leite, se não for de peito. Cuidado com charlatanismo que te faz comprar leite caro à toa. Exija o exame de alergia, porque tem muito médico que tá cagando pra gente.

Obs. 3: A vacina rota-vírus é super forte. Costumam dar umas 4 vacinas de uma vez nos bebês e muitos não aguentam, sendo que não é preciso. Exija que essa rota-vírus seja dada separadamente, mas respeite o tempo em que precisa ser dada. Um intervalo de uma semana das outras é o suficiente. E sempre lave as mãos com álcool gel porque dá diarreia e é contagiosa, você e o marido podem adoecer também, como eu adoeci na primeira dose. Para a dor da picada, veja o que funciona melhor, compressa com água fria (não gelada) ou banho quentinho. Válido dar remédio pra dor, se liberarem.

→ Carrinho, berço, colchão e cadeirinha:
Vale comprar berço de madeira de verdade ou de compensado novo em loja, que vira cama. Comprar berço de recém-nascido que custa um rim e que vai ser usado por poucos meses é rasgar dinheiro. Lembre-se de medir colchão, berço e lençóis se comprarem separados. Tem dois padrões: nacional e americano. O americano é maior.

O carrinho vale comprar aquele que vem com bebê-conforto que encaixa. Aí ele se adapta conforme o/a bebê cresce. A cadeirinha, compre das fortes com pés grossos que ficam retas ou reclinadas, porque dá pra usar até uns 4 anos de idade.

Esta é a cadeirinha da Fisher-Price que minha sobrinha usou e agora o irmão dela usa, que é ótima e durou seis anos:

cadeirinha 4
Cadeirinha maneira

LISTA DE COISAS BÁSICAS PARA A MAMÃE

→ Hábitos:
– Beba água loucamente;
– Cuide dos dentes loucamente;
– Tome todas as vitaminas recomendadas para não perder os dentes nem fragilizar seus ossos;
– Coma coisas nutritivas e carne;
– Tome suco de beterraba, laranja, cenoura e maçã ao menos três vezes por semana;
– Se exercite da forma que for melhor para você;
– Medite;
– Busque orientação psicológica porque os hormônios mexem muito com o equilíbrio emocional.

Obs.: Eu não me cuidei, tive gengivite e corro o risco de perder meus molares. Prepare-se para a possibilidade de gengivite, sangramentos nasais fortes e sentir calor como nunca na vida (hormones are a bitch).

→ Mínimo de 3 unidades durante e após a gravidez:
– Talco para os pés;
– Leite de Magnésia para usar como desodorante (mais saudável e funciona lindamente);
– Produtos de saúde para a vagina (de acordo com o que precisar, ver nos exames com o ginecologista);
– Pomada de lanolina para mamilos de uso durante a amamentação (Millar);
– Absorventes noturnos ou fraldas geriátricas (depende do tamanho do sangramento após o parto/ ignore os absorventes próprios para pós-parto, eles são uma droga);
– Protetor/bloqueador solar acima de 80;
– Hidratante corporal comum da sua preferência;
– Hidratante facial comum da sua preferência;
– Hidratante de colágeno caro para a sua barriga, costas, peitos, coxas e todo lugar que for esticar (Hidramamy Mantecorp).

Obs.: Suas bactérias podem mudar drasticamente, então, seu cheiro vai mudar. Se não usar protetor, pode ficar com o rosto manchado. E se não usar o raio do creme de colágeno você pode ficar com a pele toda estragada de estrias. USE. Se for necessário, compre Cicatricure para estrias enquanto elas estiverem vermelhas.

→ Roupas:
– Calcinhas de vó bem largas;
– Sutiãs ou tops de ginástica que não te aperte;
– Vestidos, blusas e calças bem largas com design que você poderá usar depois do parto;
– Sapatos maiores (de acordo com o quanto seus pés crescerem);
– Cinta abdominal para o pós-parto se você sentir desconforto no abdômen;
– Pijama leve de algodão e robe maternidade para usar no hospital.

Obs.: Elásticos vão arrebentar e sapatos apertados podem te fazer desmaiar (eu quase desmaiei). A cinta é muito importante para dar sustentação para o abdômen. Os músculos ficarão esticados e flácidos, então, conforme você andar, seus órgãos ficarão balançando como se você fosse uma garrafa d’água meio cheia sendo chacoalhada.

Agora, mamãe, é só ver o que você pode usar e adaptar o que não puder.

E última dica! Busque uma rede de apoio. Quem fique do seu lado e fique com seu bebê pra você conseguir cinco minutos pra ir cagar, tomar banho e almoçar, porque é punk quando o bebê não dorme o tempo todo e te deixa livre para fazer tudo isso mais pilates, cabelo, maquiagem e o seu mestrado ou doutorado. Convoque amigos e família para fazer revezamento de colinho. Vai ser amor tanto pro bebê quanto pra você.

Boa viagem! ❤

Sobre resiliência

Essa palavra tá gasta já de tanto aparecer nas redes sociais. Todo mundo gosta de usar e parecer iluminado, de pensamento acima da média. E de fato é uma palavra importante para tempos difíceis, resiliência é sabedoria de vida! Só que não do modo que as pessoas pensam que é.

Pesquisando a palavra no Google, esse foi o resultado:

resiliencia

  1. FIGURADO (SENTIDO) • FIGURADAMENTE
    capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.

Pra você ver como sentido figurado pode ser traiçoeiro na hora de interpretar, minina. Tem até imagens bonitinhas com carinha sorridente e natureza, mas isso não ajuda muito. Aliás, isso só mostra que a interpretação está totalmente errada.

Isso aqui é o que as pessoas acham que entendem da palavra resiliência:

Sua vida tá uma merda?
Aguenta. Seja forte.
Ser resiliente é não ceder aos problemas.
Um dia isso vai passar com fé em Deus.

Então… Não é isso que essa palavra significa. Dizer um absurdo desses é crueldade com quem está mal por algum motivo. Não seja babaca com quem está sofrendo, ok? Essa pessoa precisa de ajuda e não de um “se fode aí”.

Enfim, as pessoas adoram romantizar sofrimento, mas não sei o porquê. Não sei quem começou nem pra que serve. No máximo, forçando muito a barra, talvez sirva pra pessoa que tá na merda, depois que sobrevive bem mais ou menos a tudo, possa se sentir super vitoriosa porque ela não caiu. Muitos caem, mas não ela. Sozinha, sem a ajuda de ninguém (talvez só de uns quatro tarja preta que te anestesia para a vida e te faz passar seus dias como um zumbi que não aproveita nada de nada, nunca), essa pessoa superou tudo como uma campeã. Depois vai dar testemunho nas redes sociais e na igreja de como a fé pura mudou tudo pra ela. Só porque ela mostrou seu amor ao Todo Poderoso, fechou os olhos e entregou nas mãos de Deus.

*pausa para fazer cara que “mas faça-me o favor” e respirar para não se alterar*

Eu acho que a pessoa não deve ter fé? Não. Se a fé da pessoa é importante para ela, muitas vezes as escrituras têm palavras interessantes e pertinentes ao que ela tá passando. Eu acho que a pessoa deve sentar a bunda dela e não mover um dedo para mudar a própria situação, aceitando tudo que acontece com ela porque ser resiliente, no entendimento distorcido dela, é aceitar calada e superar sozinha? HELL TO THE NO, MY FRIEND. Essa pessoa merece ajuda de verdade.

Ser resiliente é não desistir, porém não sem apoio e ajuda efetiva. A pessoa precisa de psicoterapia em muitos casos. Precisa de conselho financeiro, precisa de vaquinha virtual, precisa de ajuda voluntária. Ela precisa de amigos, de amor. E ELA NÃO PRECISA DE JULGAMENTOS. E nem pense em abrir a boca pra dizer a ela “Ah, mas eu não passei por isso e tô aqui?”. Mas pobrema seu se você passou por isso. Isso se aplica a VOCÊ, à SUA vida, a como VOCÊ lida com as coisas, com a SUA personalidade, o SEU entendimento de religião e fé, o SEU entendimento de família, com a SUA condição financeira, etc., etc., etc. A outra pessoa não é você e ela não tem a obrigação de seguir exatamente todos os seus passos para lidar com problemas dela.

Nenhuma pessoa consegue retornar se um período muito difícil sem ajuda. Medicamento tarja preta não resolve a vida. Ele anestesia o que você sente e não resolve a fonte dos seus problemas. Ele não te ajuda a mudar paradigmas, ele não te dá conforto nem encoraja. Tarja preta não melhora a sua autoestima para que você tenha confiança de tentar algo novo. E o próprio Conselho Federal de Psiquiatria já lançou nota oficial para a população afirmando que remédio sozinho não ajuda. A pessoa precisa de psicoterapia também. Senão você toma, se anestesia e não chora por um tempo, cria tolerância e toma dose maior até perder o efeito. Nisso, se você tem gene de vício, fodeu pra você, amor. Você pode ficar dependente e estragar mais ainda a sua vida.

Então vamos ver direitinho o que é resiliência? Vamoooooos!

Resiliência é buscar o A.A.A.A. (Amor, Amizade, Apoio e Atitude) em tempos difíceis. Você merece ter com quem conversar e desabafar sem receber julgamento. Você merece um profissional que te dê soluções de fato funcionais. Você merece ajuda financeira, você merece uma parceria nova. Um divórcio, se for o caso. Um trabalho novo, ou sair do seu se ele te massacra. Você merece uma babá para seus filhos. Resiliência é não desconfiar da ajuda que você possa receber para passar pela tempestade, ok?

E uma última coisa: resiliência não significa voltar a ser o que era antes. Ninguém volta a ser o que era antes. Nós mudamos a cada dia, a cada conversa, a cada situação. Ser resiliente é saber voltar da tempestade melhor do que você era antes. Com mais dinâmica, mais resistente, com mais tranquilidade por dentro. Abandonando hábitos ruins e se cuidando melhor, se conhecendo melhor. Com fé ou sem. Buscando ajuda antes que você esteja mal demais para conseguir se levantar. Não espera ver o fundo do poço. Viu que umas coisas estão desencaminhando? Tome uma atitude e busque o A.A.A.A. na hora. Você só tem a ganhar.

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E você, pessoa que tá de boas e quer ajudar o coleguinha, olha aqui um guia passo-a-passo simples, direto, objetivo e claro de como ajudar que deve ser seguido nessa exata ordem:

– Ouça o que a pessoa tem a dizer em silêncio. Ela não quer solução, ela não quer julgamento, ela não quer ouvir a sua história. Ela quer desabafar. Talvez ela fale por 7 horas seguidas? Talvez. Mas vai fazer bem a ela. Fale palavras neutras (sim, certo, entendo, é mesmo?, puxa, e aí?, e afins) e deixa a pessoa saber que você está ouvindo.

– Procure saber o que a pessoa já tentou para não ser afobado em dar conselho que não serve pra ela.

– Procure saber da condição financeira da pessoa e ver o que ela precisa.

– Indique bons profissionais que trabalham com esse tipo de problema e que estejam dentro do orçamento.

– Se não estiver e você puder pagar, pague de coração. Não empreste dinheiro que isso vai dar angústia na pessoa de não poder pagar de volta. Ela não precisa de outra dívida.

– Aproxime-se da pessoa. Amizade e lazer ajudam em momentos de crise.

– Dê amor. Seja físico (abrace, beije, faça cafuné) ou metafórico (ajude a arrumar a casa, pagar uma pizza, que seja), amor alimenta a vitalidade das pessoas.

– Comemore que a pessoa conseguiu algum progresso, por menor que seja. Suas pernas não vão cair de demonstrar seus sentimentos para com essa pessoa. Tá?

Agora não tem desculpas. Abra os braços e vá ajudar quem precisa.

 

Direitos Humanos para humanos direitos

Quem daqui que afirma que os Direitos Humanos só servem para defender bandido já acompanhou o trabalho de perto? Já foi nas periferias, já foi na delegacia, já foi aos fóruns, às escolas, aos batalhões de polícia, e perguntou como as coisas funcionam? Quem aqui já fez entrevista, já pesquisou a origem e quais instituições participaram da sua criação? Vocês fizeram tudo isso?

Eu fiz. Quando era estudante de Psicologia, era minha obrigação pesquisar isso, pois atenderia pessoas carentes no estágio e precisava saber como proceder em casos de abusos, por exemplo. E como filha de PM e advogada, Direitos Humanos sempre estiveram perto de mim. Passei a vida conversando esses profissionais e visitando batalhões e fóruns. Como tinha de pesquisar para a universidade, eu fazia minhas entrevistas informais por conta própria para compreender a aplicação dos Direitos Humanos, não apenas a teoria ao ler livros e artigos.

Há muita burocracia, como tudo no mundo, mas o alcance dos Direitos humanos é bem amplo. Podem ser aplicados em casos individuais e coletivos. Por exemplo, desde o resultado das eleições deste ano está ocorrendo a morte do povo indígena com mais afinco. O Conselho dos Direitos Humanos está sendo usado pela ONU na tentativa de proteção dos índios a fim de evitarmos um genocídio.

Eles já foram usados para tentar evitar genocídio em presídio (talvez por isso falem que é para defender bandidos). Os presídios no Brasil são mesclados. Não há prédio para assassinos e estupradores separado daqueles presos injustamente, dos que apenas furtaram porque não têm o que comer, da jovem que furtou material escolar porque não tem dinheiro para comprar, do pai que não pagou a pensão e foi preso. O Brasil não tem pena de morte, mas muitos morrem lá assim que chegam. Basta haver a super lotação para rodar na loteria. Como os Direitos Humanos batem de frente com pessoas corruptas e sem caráter, eles não agem como um poder absoluto. Mas ainda são a força maior contra a violência nos presídios visando a preservação do corpo e da mente daqueles que estão lá e que não merecem, mas a quem devemos ajuda. A Constituição garante moradia, trabalho, lazer, saúde e educação a todos, mas o país se recusa a entregar. Os Direitos Humanos são usados na tentativa de que a Constituição seja respeitada.

E quando a Marielle foi assassinada, eu mal conhecia o trabalho dela. Fui atrás para saber, pois não gosto de fofoca. A Marielle trabalhava a favor da proteção dos civis nas periferias, dos PMs que trabalhavam lá e relatava abusos policiais. Existem policiais honestos e desonestos. E os desonestos são violentos tanto com os civis quanto com seus colegas de profissão. Ela foi assassinada por delatar pessoas desonestas. E foi a única que batalhava para que as famílias dos policiais mortos recebessem suas indenizações do Governo, assim como os civis. Ninguém mais fazia isso pelos policiais. Há relatos das famílias até em jornais, é só pesquisar, mas as pessoas preferem repetir o discurso de ódio contra uma pessoa que nada mais fazia do que ajudar os outros.

Nos projetos políticos, todos, para a população carente os Direitos Humanos são usados também. Para quem sempre pergunta por que não são usados com os nordestinos que vivem em condições de miséria, tenho alegria em te informar que eles são, sim, usados para defendê-los. Mas como eu disse antes, os Direitos Humanos não são um poder absoluto. Dependemos da aprovação de governantes psicopatas para termos algo de bom. Há aqueles que buscam ajudar, mas assim como Marielle, aquele que força a barra demais acaba embaixo da terra. Infelizmente, as pessoas se recusam a entender que isso não é paranoia de quem assistiu filmes demais. Essa é a realidade.

Então, peço gentilmente: se alguém aqui tem experiência como eu estudando e trabalhando com os Direitos Humanos, você poderia dar seu relato? Seria muito bom para conhecermos mais de um entendimento do que são os Direitos Humanos e como eles funcionam.

O que são direito humanos? | ONU Brasil

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A falta de limites da zoeira e a dó dos professores de História

Esse texto está sendo o mais difícil de eu escrever até agora, mas sinto uma urgência em desabafar. Talvez ele não faça sentido, talvez ele seja cheio de raiva, eu sei. Mas vai ser saindo aqui que vou conseguir clarear minha cabeça quando eu lê-lo depois. Agradeço desde já a compreensão.

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Os brasileiros estão mudando a percepção que o mundo tem de nós a passos largos. Em poucos anos isso de que “a zoeira não tem limites” passou dos limites. De todos. E isso precisa ser impedido de continuar a evoluir antes que catástrofes maiores aconteçam.

Sempre tivemos fama de ser um povo alegre, que sabe usar a criatividade para superar (ou se conformar com) as desgraças da vida. Isso, que poderia ser uma qualidade, foi subvertida. Nós passamos de fazer pequenos trotes entre amigos para “brincadeiras” a nível nacional e internacional. Digo entre aspas porque as brincadeiras viraram ofensas terríveis e estão sendo naturalizadas. Ninguém percebe o perigo que isso representa.

Eu sinto que os preconceitos que sempre existiram, inclusive no nosso humor, passou a se intrincar de uma outra forma. Com as lutas das minorias por respeito, com o surgimento de estudos sociais, psicológicos e filosóficos sobre esse tipo de violência (porque é uma violência), quem é apegado aos preconceitos se sentiu ameaçado. As pessoas perderam muito rápido a noção do que é brincadeira e caíram no reino da total falta de educação, talvez por um instinto de defesa do que acreditam ser certo. E quando eu falo de falta de educação, eu me refiro à falta de educação em todos os sentidos. Tanto intelectual quanto familiar.

Para começar, acho que já falei antes, vejo que o brasileiro está mimado. A cultura do “eu primeiro” pulsa forte na nossa veia. Você não tem mais como se defender de micro e macro agressões, feitas a troco de nada, só porque você está cuidando da própria vida e o outro quer passar por cima de você por achar que isso é um direito dele. Nisso está presente também os preconceitos. Já que Bolsa Família é coisa de vagabundo, mas o juiz, que ganha um salário exorbitante e usa de Auxílio Moradia, está apenas desfrutando de um direito garantido por lei…

É impressionante que o puxa-saquismo da realeza, por esperança de fazer parte dela um dia, ainda não desapareceu. Por que querer fazer parte de uma realeza que se alimenta de tortura e morte de seu povo é uma coisa a se almejar? Isso é mau caratismo. E vemos esse mau caratismo sempre que vemos um trabalhador com mais status falar mal dos trabalhadores sem status por preconceito.

É uma cegueira muito doida essa que não permite que uma mão de obra não se identifique como tal e se ache parte da elite. Querido, deixe de ser burro. Elite é o dono da Petrobrás. Ser dono de franquia de restaurante ou de consultório médico não te faz elite. Você está ali vendendo mão de obra. Numa crise econômica, sem clientes, você vai à falência. Elite não vai à falência. É preciso gerações para gastar os bilhões que ela tem para deitar e rolar em cima. A elite não consegue se livrar do dinheiro nem que queira. Só se livra se abdicar dele, e isso ninguém faz.

Olhando essa cegueira, é como se fossemos uma nação de pessoas com Transtorno de Personalidade Narcisista. Essa vontade de fazer parte da realeza, na época da colonização, tinha uma razão óbvia. Era sobrevivência, era fugir da escravidão e da morte em um povo que não tinha voz. Mas hoje, gente… As coisas estão um tico melhores. Conquistamos um papel político que temos o direito e o dever de exercer. Porém, essa vontade virou um paradigma sagrado. Nascemos e crescemos pobres, mas vendo todos ao nosso redor exigindo coisas de outros pobres, exigindo vantagens para si sem um pingo de espírito comunitário. O discurso da realeza que rebaixava negros e índios nunca saiu da nossa boca, mesmo que nós sejamos negros e índios.

Logo, nós não somos qualquer tipo de narcisista. Nós somos o narcisista paradoxal. Aquele que não é patriótico, idolatrando a cultura branca. O narcisista que odeia sua origem, seu sangue, sua música, sua aparência, sua comida, suas religiões, sua natureza e que odeia tudo que o Brasil representa. É o brasileiro que se sente superior ao mesmo tempo em que se nega, que está sempre pronto para fazer as malas. “Verás que um filho teu não foge à luta” é uma ova. Foge com orgulho e óculos escuros de grife na cara, dando tchauzinho para quem não tem condições de sair da mão dos seus algozes.

Com o tempo, esse comportamento de puxa-saquismo foi se mesclando com o “humor brasileiro”. Humor de merda. São raras as pessoas que usam o humor para confortar o que merece ser confortado e criticar o que precisa ser criticado. Humor é algo a ser estudado, não basta você se achar espertonildo para ser um bom comediante. São artes cênicas, comédia, narrativa, literatura, cinema, teatro… É um caldeirão de qualidades que essa pessoa tem de ter para apresentar um trabalho digno.

No entanto, essa profissão está sendo avacalhada pela população e seu comportamento na internet, porque para entender a comédia também é preciso estudar. Mentes vazias só conseguem interagir com comédia vazia. É o cara ateando fogo na própria flatulência, é o namorado sendo fisicamente abusivo com a namorada, é a humilhação dos povos mais humildes que alimentam mentes vazias se travestindo de comédia, pois essas pessoas não sabem o que é ler um livro e desenvolver pensamento crítico. São os analfabetos funcionais diplomados que escolhem ir para a Disney em vez de ir ao museu.

Muitos sites de humor surgiram em pouco tempo, quando a internet ganhou força no país nos anos 2000. O antes humor inofensivo virou um bololô de preconceitos após o levante das minorias. Nós usamos memes para destilar discurso de ódio e desprezo por pessoas que vivem na miséria, em risco de morte. O desenho da uma coxinha com braços e pernas, triunfantemente fincando a bandeira da vitória no mapa do Brasil após o impeachment da Dilma é o símbolo master plus da ignorância.

E as eleições brasileiras de 2018, então? Foram as eleições mais sem pé nem cabeça de todos os tempos. O Daniel Duncan disse que não poderia imaginar que o Fofão, da Carreta Furacão, seria uma peça fundamental do impeachment da presidenta em 2016 (sim, presidentA, vá ler um dicionário antigo e comprovar que isso não é invenção da Dilma). Mal sabia ele que aquilo era só o começo.

As notícias falsas tomaram conta das redes sociais nos últimos anos e, infelizmente, foram a peça fundamental da eleição do novo presidente. Notícias tão mal feitas, tão absurdamente estúpidas, que as pessoas caíram sem pestanejar. As pessoas mais velhas que viveram a ditadura, que bradam com desgosto sua decepção com o destino da Educação no país, que tanto dizem que na época delas que a Educação era boa, foram as pessoas que caíram nas notícias falsas com mais força.

— Porque os presos vão ser soltos, isso está nas propostas oficiais!
— Você viu o Kit Gay? Recebi quatro versões diferentes e fiquei horrorizada!
— E as mamadeiras de pênis nas creches? Jesus amado! Vão perverter as nossas crianças!
— Não se esqueça que a pedofilia vai ser legalizada por essa corja do PT!
— Vamos ser estuprados dentro de casa com esse comunismo infernal que vai socar estranhos dentro da minha casa!
— Vamos perder todas as nossas propriedades privadas e nossa liberdade!
— Tudo culpa desses professores doutrinadores fazendo lavagem cerebral nos nossos filhos!

E eu me pergunto: que mistura de Loki com Espírito Zombeteiro é essa que está devastando o país? As pessoas estão drogadas? Como caralhos que ninguém viu na hora que tudo isso é tiração de sarro com a nossa cara? Como que não perceberam que foram pessoas sem caráter que estavam rindo da nossa burrice para se eleger para a presidência do país e nos destituir de tudo que conquistamos até aqui?

A palhaçada já começou, mesmo apenas dez dias após os resultados das eleições e quase dois meses antes da tomada de posse. Acabaram com a nossa aposentadoria aprovando Reforma na Previdência. Acabaram com nossos Direitos Trabalhistas, o que vai nos escravizar ainda mais. Eliminaram o Ministério do Meio Ambiente e retiraram o Brasil das reuniões internacionais sobre esse tema.  Já destruíram nossa Educação e Saúde com aprovação de cortes de verba em 50%. Eliminaram o Ministério do Esporte e podem eliminar o da Cultura. Tudo orquestrado por pessoas corruptas, condenadas, e por um juiz de moral duvidosa, que foi tomado como herói do país ao prender o candidato à frente nas pesquisas, candidato esse que era o único empecilho para que o que foi eleito realmente ganhasse.

Quero ver agora as novas piadas do Daniel Duncan se redimindo sobre o impeachment da Dilma, dizendo que ele subestimou os absurdos possíveis em época eleitoral. O brasileiro atualizou a sua capacidade de rir da própria desgraça. Nós elegemos por identificação um mal feitor confesso, que usou discurso de ódio como proposta política. E assim o fizemos rindo, num estado de êxtase no ódio borbulhante e na nostalgia distorcida, enquanto a “zoeira sem limites” infestou a internet na maior pegadinha que o mundo já viu. A pegadinha da eleição, com notícias ridiculamente falsas sem ninguém perceber e que fizeram os políticos rirem como nunca.

A Educação no país está sucateada desde sempre. Não são todos os que conseguem fazer interpretação de texto, entender os diferentes meios de comunicação e compreender que a maldade gratuita se disfarça de boas intenções. E enquanto metade da população segue chorando, a outra metade segue rindo, sem sentir a foice da morte roçando os nossos pescoços.

Obs.: Boa sorte aos professores de História e historiadores em geral. Eles vão precisar de muita para não morrerem de vergonha ao ter de explicar toda essa putaria.

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Mas de que Jesus você tá falando?

É fácil reconhecer uma pessoa realmente cristã no Brasil. A vida dela é permeada pela palavra de Deus. Inclusive, tudo pode virar um foco de afirmação de fé. Tem cruz no pescoço, escapulário, frases religiosas na roupa, terço no zíper da bolsa, no retrovisor do carro, pendurado na cama, adesivos de peixe em todas as superfícies possíveis… E a pessoa, geralmente, possui uma alegria explicável no seu jeito de ser. Sempre sorrindo, sempre com intimidade (que a gente não exatamente deu, mas abafa). Jesus é amigo de todos. E graças à Deus que ela tem essa alegria mesmo, porque de tristeza o mundo já está cheio. Deus o livre de ser triste. Temos uma vida para viver e não podemos ser bons cristãos agindo com ingratidão.

Não, gentes, não sou contra o Cristianismo. Fui batizada na Igreja Católica Apostólica Romana (como a maioria de nós), frequento a Umbanda (que também tem valores cristãos) e tenho muito apreço pelos ensinamentos de Jesus. Gosto de ouvi-los e debatê-los porque muito me intriga a disparidade entre o se dizer cristão e o agir de forma cristã. Para mim, ser cristão (não importa de qual vertente) nada tem a ver com a descrição que fiz no parágrafo anterior. A pessoa pode nunca ter lido a bíblia na vida, porém ser a pessoa mais cristã de todos os lugares.

Mas o que é “agir de forma cristã”? Isso costuma confundir muita gente. Pelo que já vi nesses meus reles 34 anos de vida, é comum pensar que ser cristão é não ter medo de dizer isso em voz alta. Que se a pessoa não falar em Deus, se não enfiar seus ensinamentos em cada buraco do mundo, ela estará negando sua fé.

Se observarmos bem e se soubermos estatística, dá para tirar média de quantas vezes a pessoa fala em religião por semana. “Amém” nem conta mais porque tudo é “amém”. E chegam “Cristo Rei”, “Virgem Santa”, “Minha Nossa Senhora” e, cacete, como sabem a vida dos santos. Não importa o assunto, a pessoa vai falar um santo ligado a isso. Se vê um cachorrinho doente, rogam a São Francisco. Se um amigo tem problemas, Nossa Senhora Desatadora de Nós aparece, em todo o seu esplendor. Todo noticiário na tevê rende um provérbio/salmo. Sem falar do coitado do Santo Antônio… Ficar de ponta cabeça no freezer o tempo todo não deve ser nada divertido. Mas muitos não dizem a palavra “Deus” porque não se permitem tomar o nome do Senhor em vão.

Mas isso é afirmar fé? Se resume a isso, apenas? Eu não entendo esse raciocínio olhando o cenário atual que vivemos. Pra falar a verdade, eu nunca estive mais confusa em toda a minha vida.

O que aprendi em todos esses anos é: ter fé é como você entendeu os ensinamentos bíblicos e como os usa para nortear o seu comportamento. Se você precisa repetir a cada segundo partes da bíblia, é porque ainda não entendeu o recado. Evangelizar não deve ser visto como uma batalha de conversão a ser ganha, mas mostrar o que a bíblia quer dizer ao simplesmente ser solidário aos outros, sem esperar algo em troca.

Infelizmente, vivemos tempos difíceis e vemos nas redes sociais que “ateus estão tendo de lembrar os cristãos dos ensinamentos de Jesus”. E é verdade. O medo está sendo implantado na cabeça das pessoas há tempos. Estamos perdendo a noção da realidade em notícias falsas que fomentam o ódio a tudo e a todos. Não que tivéssemos total noção antes. Sempre fomos sem noção na maior parte do tempo. Mas quando vejo uma foto de mulheres na igreja fazendo, empolgadamente, arminhas com as mãos, e ao fundo a imagem de Jesus de braços abertos como se dissesse “por favor, parem com isso”, é de se questionar o que aconteceu que a gente deu tão errado.

Não adianta usar uma cruz no pescoço e não se lembrar que ela é um instrumento de tortura usada para matar o seu Deus. E Ele morreu por todos nós. Aquele momento foi o perdão para os nossos pecados:

32 E também conduziram outros dois, que eram malfeitores, para com ele serem mortos.
33 E, quando chegaram ao lugar chamado a Caveira, ali o crucificaram, e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda.
34 E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. E, repartindo as suas vestes, lançaram sortes.
35 E o povo estava olhando. E também os príncipes zombavam dele, dizendo: Aos outros salvou, salve-se a si mesmo, se este é o Cristo, o escolhido de Deus.
36 E também os soldados o escarneciam, chegando-se a ele, e apresentando-lhe vinagre.
37 E dizendo: Se tu és o Rei dos Judeus, salva-te a ti mesmo.
38 E também por cima dele, estava um título, escrito em letras gregas, romanas, e hebraicas: ESTE É O REI DOS JUDEUS.
39 E um dos malfeitores que estavam pendurados blasfemava dele, dizendo: Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e a nós.
40 Respondendo, porém, o outro, repreendia-o, dizendo: Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação?
41 E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez.
42 E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.
43 E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.
(Lucas 23:32-43)

No entanto, Jesus perdoar nossos pecados, já sabendo que continuaríamos pecando, não é carta branca para fazer merda sem peso na consciência. A crucificação simboliza que todos nós, sem distinção, somos amados por Jesus, certo? E Ele nos disse:

30 Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento.
31 E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.
(Marcos 12:30,31)

12 O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.
13 Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos.
14 Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando.
15 Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer.
16 Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda.
17 Isto vos mando: Que vos ameis uns aos outros.
(João 15:12-17)

Ou seja, ser cristão é saber o que Jesus nos pediu, seguindo seu máximo exemplo. Ele não desprezava ninguém. Não chamava ninguém de vagabundo, de doente, e jamais disse que alguém merecia morrer. Jesus nunca gesticulou nem usou armas para ameaçar quem precisava repreender. Jesus acolheu toda pessoa que precisava ser acolhida. Ouviu, conversou, ensinou e curou. Não sei qual é a dificuldade das pessoas de compreender a importância disso.

Os ensinamentos que mostram Jesus se envolvendo com as classes mais baixas, defendendo ladrões e prostitutas, trabalhando pelos doentes, esses, sim, são os ensinamentos de mais valor. Pois esses nos mostram o que é humildade. Que não existe pessoa no mundo que seja superior ao resto. Somos todos iguais. Se tentássemos nos comportar dessa forma, buscaríamos ser justos e amigáveis. O que pode estragar esse rolê é o caráter das pessoas. Aqueles que têm sede de poder e zero dor na consciência de ver pessoas sofrendo. E eu desconfio de quem sai da missa e desvia do mendigo na porta da igreja, pedindo ajuda para ter o que comer. Isso, sim, é tomar o nome do Senhor em vão. Repeti-lo por horas e ignorar um irmão em sofrimento na rua logo depois.

O que eu quero dizer com isso é que a maldade no mundo depende de nós. Se quisermos paz, não é pregando violência contra minorias que vamos conquistá-la. Nós somos iguais. Estamos no mesmo mundo procurando a mesma coisa: viver em paz. Na santa paz de Jesus. E sinto informar, mas na-da faz uma pessoa mais merecedora que outra dessa paz.

*Pausa para um momento de dor, desesperança e futuro, porém certo, constrangimento alheio*

Então, né? Podemos dizer que essas eleições foram surreais. Minorias desesperadas, jornais do mundo todo desesperados e até personalidades estrangeiras desesperadas. Mas ninguém ouviu esse desespero. O que ouvimos agora são comemorações com tiros de arma de fogo e gritos de morte para pessoas inocentes. Mas ainda assim digo que não devemos lutar com revolta no coração. Quem cai na escuridão é quem mais precisa de ajuda. Portanto, devemos lutar com amor, e clamar: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”.

A importância da cultura

Ontem e hoje vi dois vídeos sobre cultura. É um tema que tem sido mais debatido nos últimos tempos, e mais intensamente nos últimos meses, graças às eleições. A ameaça do fim do Ministério da Cultura é um disparate. Um absurdo total e completo. E quero falar o porquê.

Bom, vou começar com uma breve explicação do que é cultura, primeiro.

Cultura é tudo que é do conteúdo psíquico humano. São nossas dúvidas, nossas crenças, nossos gostos, nossa estética e até nossas falhas. Existem duas partições para a cultura: a partição presente no cotidiano e a partição presente na arte.

A primeira, presente no cotidiano, se resume a tudo que pensamos, cremos e sentimos. Nosso sistema psíquico se reflete nas nossas tradições étnicas, nos nossos rituais, na nossa comida, na nossa religião, no bom dia, boa tarde, boa noite. No modo que eu escolho para falar com o morador de rua. No modo que eu trato meus filhos dentro de casa. Tudo isso é expressão humana, ou seja, expressão cultural. Tanto que vemos como eventos culturais uma feira de comida italiana, ou o Dia do Orgulho Negro. São celebrações que nos ajudam a lembrar e reforçar tradições e crenças, não necessariamente relacionadas à arte.

A segunda partição da cultura é justamente a arte, que está em pauta atualmente na política. Arte também é cultura. Isso se estende para a música, a pintura, a dança, a literatura, o cinema, o teatro… Tudo isso e mais é expressão cultural da psique humana. Ou seja, a arte se baseia no mundo interno humano, em tudo que falei no parágrafo anterior, para montar uma representação de quem somos. Tanto que vemos um filme, ouvimos uma música, vemos uma peça de teatro e nos identificamos muitas vezes. Pensamos “Nossa, mas eu sou essa personagem!” e muitas vezes geramos um diálogo sobre isso. Uma avaliação da personagem/de nós mesmos. E é sobre isso que quero falar, sobre essa avaliação.

Ontem, vi uma live do ator Fredy Állan Galembeck (mais conhecido como o Zequinha do Castelo Rá Tim Bum), no Instagram, falando sobre cultura. Ele discursou sobre a importância dos trabalhos de arte e sobre os equívocos que muitas pessoas cometem ao pensar que a arte é dispensável e que artistas apenas querem uma vida fácil, pois “recebem dinheiro do governo” e que “são vagabundos”. O motivo da live foi que uma moça disse essas coisas para ele e o chamou de comunista (como se fosse algo ruim, porque a teoria original do comunismo é muito linda, pra ser sincera) na tentativa de agredi-lo por sua posição política contrária ao candidato do PSL, Jair Bolsonaro.

Isso me entristeceu muito. Ver cada vez mais que as pessoas se recusam, por livre e espontânea vontade, a pesquisar e a conhecer as leis do próprio país. O Fredy falou das dificuldades do trabalho, de todos os obstáculos que precisam enfrentar para não saber se o projeto vai dar certo, inclusive das porcentagens das verbas destinadas para a cultura, que é uma das menores de todas as áreas do país.

Eu quero agora reforçar a explicação que ele deu para a importância da cultura na vida das pessoas.

O Fredy, em dado momento, pediu para que a gente lembrasse do Castelo Rá Tim Bum e pensasse no que viveu com ele. E em seguida que imaginasse como seria se nunca tivéssemos assistido ao programa. O que mudaria? Estaríamos todos ali do mesmo jeito, mas seríamos diferentes de quem somos hoje. Perderíamos em alegria e talvez não aprenderíamos o que aprendemos com o programa. Que se a gente não se conecta com aquilo, não vai sentir falta. Mas se a gente se conecta, aquilo faria falta porque foi parte da nossa formação, do nosso caráter. É o que ajuda a gente a buscar ser uma pessoa melhor.

Ele explicou mais isso, em seguida citando a frase de um professor de música de um amigo dele, que numa aula disse “A gente tem que estudar não pra acertar. A gente tem que estudar pra errar menos.”. É uma frase fantástica. Eu, intrometida, comentei lá que é isso mesmo, pois não existe perfeição. Que no máximo podemos errar menos e é nosso dever fazer isso. E que a cultura é a evolução da alma e da mente para errarmos menos. Mas hoje acordei pensando nisso e achei que cabe mais explicação no que eu disse.

Por que diabos a cultura é um meio de evolução da alma e da mente? Bom, primeiro, para mim, o uso da palavra alma se refere ao lado emocional do humano, enquanto que a mente é o lado racional. E como boa psicóloga que sou, ambas são áreas que precisam ser trabalhadas todos os dias, para sempre, pois como eu disse antes, não existe perfeição.

Tá. Mas o que que a cultura tem a ver com isso? Então. Lembra antes quando eu disse que cultura é reflexo do conteúdo psíquico humano? Pois é. Repetindo aqui para ser bem redundante mesmo, a arte se baseia no mundo interno humano para montar uma representação de quem somos. E isso se torna um instrumento de estudo de nós mesmos quando temos contato com alguma arte e criamos uma opinião. Essa opinião revela quem somos, nossas qualidades e nossas falhas. E é preciso muito contato com a arte para que a gente aprenda de fato a apreciá-la sem condená-la. Sem censurá-la.

Tudo que a arte traz, ela traz de dentro de nós e coloca em um palco. Esse distanciamento proporciona a oportunidade maravilhosa de olharmos para nós mesmos de forma lúdica. É uma forma de psicoterapia, se você me permite ousar dizer. Tanto que psicoterapeutas aprendem técnicas de avaliação de gostos artísticos para que conheçamos melhor nossos pacientes, pelas coisas que eles não dizem diretamente.

A arte pode ser vista como a expressão lúdica da autocrítica. Como tudo provém de nós mesmos, podemos adorar, que é a expressão do que gostamos em nós mesmos, e podemos detestar e até condenar, que é a expressão das nossas falhas e limitações. Mas é apenas por meio dessa reflexão que a arte propõe que ela se mostra essencial, senão ela se torna obsoleta. Todos os artistas dizem que arte não tem objetivo apenas de suprir estética e entretenimento. A arte foi feita para incomodar. Para criticar. Para provocar as emoções e o pensamento. Mas, atualmente, as pessoas têm expressado apenas a preguiça de pensar (ou seria mais correto dizer que têm expressado o medo de se enfrentar?).

Isso me leva ao vídeo do ator Caco Ciocler, no qual ele fala também da importância da arte e do trabalho desgraçado que dá para fazer um único projeto dar certo. Ele explica a Lei Rouanet, da era Collor (logo, nada a ver com receber dinheiro do PT, gente, plmdds), e como eles trabalham dia e noite para levar cultura para a população por puro amor à arte. Fala dos gastos e de todos os descontos que dão para facilitar o acesso do povo à arte (fora os trabalhos voluntários em periferias que ele nem citou, que são gratuitos). Todos sabem que artistas no Brasil levam uma vida humilde. Dificilmente tem alguém milionário (beijo, Tom Cruise!) no Brasil trabalhando com artes cênicas, se é que realmente tem alguém. Eu acho que não. E no final do vídeo, o Caco fala sobre a ameaça ao fim da Cultura do país e que isso só interessa a um governo que quer um povo burro.

Um povo que não usufrui da sua cultura, que não mergulha na arte e nos eventos culturais, está fadado à estagnação intelectual e emocional. Pela arte podemos criticar a nós mesmos, aos outros, aos erros, até ao governo! Podemos confortar, fazer rir e curar. Nós podemos curar nossas feridas, podemos mudar percepções distorcidas da realidade com o trabalho dessas pessoas, e assim entendermos que podemos ser melhores uns para os outros. Basta que a gente pare um pouco e preste atenção no que eles têm a dizer.

Gente, a arte é catarse (cura por meio da expressão das nossas angústias, definição essa pela Psicanálise). Ela não apenas apresenta nossos problemas. Por meio da reflexão, ela também apresenta as soluções, pois ela instiga o debate, as dúvidas, o questionamento.

Assim sendo, não tenhamos medo de pensar, de olhar para nós mesmos com pensamento crítico. Sejamos honestos, sem medo de julgamento. A crítica da arte é edificante, não condenatória. Então, peço humildemente: vamos olhar para a arte com mais amor. Vamos enxergar que sem a arte ficaremos engessados, sem chance de evoluir nossas almas e nossas mentes para o melhor que podemos ser. ❤

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Obs.: Para quem quiser, abaixo estão dois vídeos que citei.

Vídeo do Fredy Állan Galembeck:
#PORQUESIMNÃOÉRESPOSTA 4

Vídeo do Caco Ciocler:
Caco Ciocler : A Lei Rouanet não tem nada a ver com o PT

E de quebra um vídeo da Lully de Verdade, falando de leis de incentivo e do filme Chatô:
Tudo sobre Chatô, o Boyhood brasileiro – Lully de Verdade 261

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Confissões de uma ex-babaca (Parte 1)

Hoje, posso dizer que tenho bons amigos. Pessoas com quem posso contar se algo de mal me acontecer. Pessoas que moram perto, pessoas que vejo uma vez ao ano, e até pessoas que só consigo contato por telefone ou internet. Mas sou grata por ter conhecido cada uma delas, pois foram elas que me ensinaram que amizade edifica o ser humano.

Quem conversa comigo atualmente não imagina como eu era antes. Geralmente pensam que sempre fui assim, que sempre tive as mesmas ideias e ideais. Elas não poderiam estar mais enganadas. Eu era uma total e completa babaca. Mas babaca mesmo, no sentido mais profundo da palavra. Estou dizendo que agora sou um anjo de candura? Pelamor, é claro que não. Babaquice não se extingue tão facilmente e ainda me pego pensando em coisas idiotas, mas estou aprendendo a silenciar minhas opiniões e a estudar antes de falar.

A questão é que eu nasci em 1984, logo no final da ditadura. A noção de educação naquela época era bem diferente da de hoje. As pessoas focavam em disciplinas intelectuais e excluíam todo o resto. Não se discutia problemas de aprendizagem nem educação emocional. Eu tive uma professora no então primário que humilhava o aluno até fazê-lo chorar, e ela ria e encorajava toda a sala a rir do aluno também (Sandra Mônica, um beijo pra você, querida! #SQN). No ginásio, escola pública, obrigava os alunos a orar uma oração cristã e não admitia que alunos ateus ou de outras crenças não orassem junto, o que era anticonstitucional. Os professores não faziam nada ou se uniam a alunos que eram preconceituosos e física e sexualmente violentos. Mas se eu não fazia a lição de casa, eu ia para a diretoria, claro.

Em casa e nos demais círculos sociais era bem difícil também. Fazer piada racista e homofóbica era o mínimo para você ser considerado engraçado. Pobre era vagabundo e mulher era burra. Tanto que quando pensei em estudar para universidade federal, riram na minha cara. Vi familiares de todos os lados falar mal e desprezar um parente homossexual. Eu não questionava nada disso.

Crescer nesse ambiente foi me envenenando. Obviamente que eu não percebi. Eu só reproduzia essas coisas e ficava nessa bolha social de horrores. Eu era alienada quanto às nossas leis, não sabia o que era feminismo, não sabia o que eram direitos civis e não entendia nada sobre partidos políticos. E minha educação intelectual se resumia aos livros que eu tinha em casa, pois nunca pisei numa biblioteca pública na vida e a biblioteca da minha escola, onde estudei de 1994 até 2001, nunca foi aberta enquanto eu estive lá. Ou seja, eu era uma anta.

Enfim cresci, fui para a universidade estudar Psicologia. Foi minha sorte. Naquela época consegui meu primeiro computador e comecei meu primeiro contato com a internet. Não precisei ir à biblioteca física, pois tinha tudo na internet. Li muitas coisas, vi muitas palestras, conheci muitas pessoas (meus santos amigos e professores). Essas pessoas me ensinaram a questionar tudo. Elas me mostraram que diversidade é a maior maravilha que podemos ter na sociedade, que a amizade que pode ser alimentada entre as pessoas é a nossa maior salvação. Sem julgar. Sem apontar o dedo. Apenas com sorrisos e mãos estendidas.

Psicologia é o melhor estudo do mundo para te ensinar a ser gente. Meu mundo interno foi destruído da forma mais rápida e violenta possível, e foi ali que eu percebi. “Santo Cristo, eu sou um monstro…”. Jamais que consegui enxergar meus erros naquelas teorias e na atitude daquelas pessoas. Eu achava que bolsa-família era um absurdo e acreditava na meritocracia. Falava esses absurdos e não enxergava além do meu umbigo até conhecer o universo desses meus amigos.

Frequentei também por muitos anos centro espírita/umbandista. E a ficha foi caindo cada vez mais. Independente de crença, não importa quem você seja, as leituras espíritas são incríveis para ensinar a ter humanidade. Nelas, a reencarnação mostra que nascemos em todas as raças, em todos os gêneros, em todas as sexualidades e em todas as nacionalidades, dependendo de qual é a nossa missão da vez. Seja isso entendido literalmente ou como metáfora de um livro fantasioso, olhem que lição incrível! Não importa quem você seja, o outro é igual a você. Em algum momento um estará no lugar do outro. Ninguém é melhor que ninguém e todos estamos aqui para aprender e para ajudar.

— Assim como disse Paul e John…
— Os apóstolos?
— Não, os Beatles: All you need is love. (Tudo que você precisa é amor)
(Citação do filme “Michael, Anjo e Sedutor”, 1996)

E digo mais! Beatles também tem essa:

I am he (Eu sou ele)
As you are he (Enquanto você é ele)
As you are me (Enquanto você é eu)
And we are all together (E nós estamos todos juntos)
(“I Am The Walrus”, The Beatles)

Eu fui percebendo que eu sou o outro e o outro é eu. Parei de chamar mulher de piranha por causa de roupa e risada alta. Parei de achar que auxílio do governo era desperdício do meu dinheiro (que eu nem produzia, arrogante do caralho). Comecei a ter empatia. Consegui enxergar o outro e sentir o que pessoas como esse rapaz sentiam:

quando eu estava mal nutrido (numa aula de psicologia tentando entender o que disse Pavlov); se você me desse uma vara e me mandasse ir pescar em vez de me dar um peixe pra comer, eu ia querer enfiar a vara na sua goela e cuspir no seu cadáver. má nutrição é uma violência.
(https://www.linkedin.com/pulse/eu-sou-fruto-de-pol%C3%ADticas-assistenciais-para-quem-tem-marco-gomes)

Minha vida inteira eu vi meu pai arrebentado em casa por causa da profissão dele (PM). Achava isso injusto e desumano com a minha família. Eu cresci com medo de ver meu pai sair para trabalhar e nunca mais vê-lo voltar para casa por causa da violência. Hoje, por causa do nosso momento político e dos discursos de ódio, estou com medo de que qualquer pessoa que eu ame – e também as que nunca vi na vida – saiam de casa e não voltem mais porque foram mortas por racismo, homofobia, xenofobia, misoginia…

Não somos inimigos uns dos outros. Não podemos ficar nessa de xingar quem você não entende e de se negar a sentir a realidade do outro. Nem é enxergar, é de sentir mesmo. Enxergar todo mundo enxerga. As violências são jogadas na nossa cara em todo lugar. Mas tem muito coração cego por aí ainda. Tem muita gente que ouve uma atrocidade e acha normal, isso falando de pessoas com dinheiro e diplomas universitários na parede.

Dinheiro não compra humanidade, mas o amor dá humanidade de graça. Então, desapegue desse ódio. Ele não vai dar nada a você a não ser escuridão. Ouça Beatles e dê uma chance para o amor vencer.

Mas eu não sou uma pessoa violenta!

São tempos tristes estes. Evoluímos tanto na área tecnológica, carregamos tanto na palma da mão com nossos celulares e aprendemos a mexer em mídias complicadíssimas em empregos extravagantes. Pra ser capaz de fazer isso, a pessoa tem de ser muito inteligente, concorda? Aí você olha a criatura e ela faz piada escrota, maltrata garçom, xinga a outra pessoa na balada quando é rejeitada… É difícil entender.

Por isso, vou falar do tema mais básico de todos: a violência e o assédio sexuais. Porque parece que muitas pessoas ainda não superaram a era cenozoica e acreditam tanto que podem agredir quem quiser, quando quiser, onde quiser, quanto que isso é um direito. Felizmente, a vida não é assim.

Então, vamos lá.

Violência sexual É CRI-ME. As pessoas parecem ter certa dificuldade de entender que crime é algo listado na lei, que tem punição, e que deve ser levada na mais alta seriedade. Mas vivemos dias em que juízes consideram que um homem ejacular nos outros no transporte público é algo normalíssimo. Imagina, por que que receber um pouco de sêmen no cabelo em público violaria a dignidade de um ser humano? Não tem motivo pra isso. [PLAQUINHA DE SARCASMO]

Somos obrigados a discutir isso com mais afinco porque as pessoas não têm a menor ideia do que é violência e assédio sexuais. Até o presente momento, muita coisa era aceita, mas não vai ser mais. As coisas estão mudando e a população precisa de cartilha para aprender a não ser mais violenta.

Vou listar aqui algumas coisas básicas sobre o certo e o errado de violência e assédio sexuais. Vou começar do mais sutil e ir progredindo.

Assédio sexual verbal é chegar na pessoa de forma desagradável. É ser mal educado e não saber que você não deve “fazer um elogio” com palavras chulas. É não saber que não deve ser insistente. É desconhecer e desrespeitar a linguagem corporal de rejeição da outra pessoa. É ignorar quando a pessoa fala com todas as letras que não está interessada. Então, tudo que existe do aparentemente inofensivo “Ê, lá em casa!” até o mais que grosseiro “Gostosa, quero meter nesse rabo até rasgar!” é inadmissível. O correto é falar que nem uma pessoa normal. Converse sobre assuntos normais, pode elogiar a roupa de forma simples (“Sua blusa é muito bonita” ou “Seu cabelo é bonito”) caso isso se encaixe no assunto. Enfim, converse normalmente se estiver interessado em conhecer a pessoa de verdade. e quiser sexo, use a internet e entre em grupos de sexo casual onde todas as pessoas são adultas e aptas a consentir. E se ao conversar normalmente a pessoa não te olha nos olhos, não responde ou diz que não gostou, fica com a postura defensiva de quem quer sair correndo, VAZA. Não enche mais o saco dela porque não vai rolar.

Assédio sexual físico é tocar a pessoa sem permissão. Não encoste sua mão na mão dela segurando a alça no ônibus. Não encoste sua perna na dela (aliás, sente de perna fechada no transporte público que teus ovo não machuca coisa nenhuma). Não puxe pelo braço nem pelo cabelo. Não gema no ouvido e não bafeje na cara da pobre pessoa. Não force beijo. Não passe a mão em lugar nenhum. A regra é: se a pessoa não tomou a iniciativa e ofereceu algum tipo de toque (estendeu a mão para um aperto ou se inclinou para abraço ou beijo), NÃO RELA. Distância de um braço é muito bem-quista.

Violência sexual, também conhecido como estupro, é todo e qualquer toque envolvendo genitais (seus ou os da outra pessoa). Não coloque sua mão nos genitais da pessoa. Não coloque seus pés nos genitais da outra pessoa. Não coloque a boca nos genitais da outra pessoa. Não coloque seus genitais nos genitais da outra pessoa. E não use quaisquer objetos nos genitais da outra pessoa. De novo, a regra é: NÃO RELA. De jeito nenhum é pra encostar se você não tem o consentimento expresso e contínuo (porque ela pode dar consentimento e mudar de ideia depois) da outra pessoa.

E se a pessoa não tem condições de dar consentimento? NEM CHEGUE PERTO. VAZA. RALA PEITO. VÁ PARA A PUTA QUE TE PARIU. Pessoas desmaiadas, bêbadas, drogadas, menores de idade ou que sofrem de algum transtorno cognitivo são expressamente proibidas de estar ao alcance de qualquer pessoa mentalmente saudável para atividades sexuais de quaisquer natureza. Certinho? Ficou claro?

Pequeno adendo: roupas e comportamento não são o mesmo que consentimento. Não é porque a pessoa usa uma roupa reveladora nem porque dá risada alta ou fala palavrão que automaticamente você pode encostar nela. Porque não pode.

Então vamos resumir aqui rapidinho os tipos de “não”:

Exemplos de não com palavras:
“Pare” – significa não.
“Eu não quero” – significa não.
“Me deixa em paz” – significa não.
“Não tô pronta/o” – significa não.
“Não tô com vontade” – significa não.
“Fica longe de mim” – significa não.
“Não quero mais” – significa não.
“Não” – significa não.

Exemplos de não sem palavras:
Se afastando – significa não.
Empurrando você – significa não.
Afastando você – significa não.
Gritando – significa não.
Chorando – significa não.
Bêbada/o ou drogada/o – significa não.
Desmaiada/o – significa não.
Tem transtorno cognitivo – significa não.
É menor de idade – significa não.
Usa roupa reveladora – significa não.
Ri alto  – significa não.
Fala palavrão – significa não.

Simples assim. Siga essas regras e seja um excelente partido. *wink wink*

abc
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